O cenário eleitoral brasileiro mudou rapidamente em junho de 2026. O agregador de pesquisas Rali, uma parceria entre o jornal O Globo e o Instituto Locomotiva, registrou que Luiz Inácio Lula da Silva abriu uma vantagem consolidada sobre Flávio Bolsonaro em simulações de segundo turno. A diferença? Exatos 4,4 pontos percentuais: 45% para o presidente reeleito contra 40,6% para o senador.
A virada não foi sorte. Ela coincide diretamente com os novos desdobramentos do chamado "Caso Master", um escândalo financeiro que envolve conversas gravadas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. O que era um empate técnico ou uma corrida acirrada em maio transformou-se, em poucas semanas, numa liderança clara de Lula nos principais institutos de pesquisa.
O impacto do "Caso Master" nas intenções de voto
Para entender a magnitude dessa mudança, precisamos olhar para trás. Em 16 de maio de 2026, antes que as gravações vazassem amplamente, uma pesquisa Datafolha mostrava um cenário completamente diferente: empate absoluto em 45% para cada candidato num eventual segundo turno. Era uma fotografia de polarização máxima, sem vencedores claros.
Mas espere. Entre o final de maio e o início de junho, a narrativa mudou. As conversas entre o senador fluminense e o banqueiro Daniel Vorcaro, associadas a negociações opacas e ao financiamento de projetos controversos (incluindo um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro), ganharam força na mídia. O resultado foi imediato nos números.
Em 22 de maio, já sob o efeito das primeiras revelações, o Datafolha atualizou seus dados. Lula subiu para 47%, enquanto Flávio caiu para 43%. Uma queda de dois pontos para o senador e um ganho equivalente para o presidente pode parecer pequena, mas em eleições brasileiras, margens assim definem destinos. O desempate ocorreu.
Dados por instituto: quem cai e quem sobe?
Não é apenas o Datafolha. Um conjunto de levantamentos recentes pintou um quadro consistente de desgaste para a direita e estabilização ou crescimento para o PT. Veja como estão os números:
- Datafolha (22/05): Lula 47% x Flávio 43% (segundo turno).
- Genial/Quaest: Lula 44% x Flávio 38% (segundo turno), uma vantagem de seis pontos.
- AtlasIntel/Bloomberg: Lula 48,9% x Flávio 41,8% (segundo turno), a maior diferença registrada até agora, com quase oito pontos de vantagem.
- Vox Brasil: Lula 46,8% x Flávio 38,1% (segundo turno).
- Rali (Média - 10/06): Lula 45% x Flávio 40,6%.
O que chama atenção é a consistência. Em praticamente todos os cenários testados, Flávio Bolsonaro perdeu terreno. Na AtlasIntel, ele caiu seis pontos percentuais em relação a medições anteriores. No primeiro turno, a queda também foi sentida: em alguns levantamentos, sua intenção de voto despencou de cerca de 39% para menos de 35%, enquanto Lula manteve-se estável ou cresceu levemente.
O fator "tarifaço" e a percepção pública
Há outro elemento crucial nessa equação: o contexto internacional. O chamado "tarifaço" imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros atingiu o bolso do eleitor e a imagem política dos candidatos. Segundo análises do portal InfoMoney e do Congresso em Foco, a combinação do escândalo interno com a crise externa criou um efeito negativo específico para Flávio Bolsonaro.
Uma pesquisa Quaest revelou que 55% dos entrevistados já conheciam os detalhes do "Caso Master". Isso indica alta penetração midiática do escândalo. Mais importante: a maioria acreditava que as ações de Flávio tinham impacto negativo não apenas nele, mas na família Bolsonaro como marca política. Esse contágio de reputação é perigoso para candidaturas baseadas em legado familiar.
Além disso, o desgosto com as tarifas americanas parece ter afetado segmentos tradicionais de apoio à direita, especialmente evangélicos, mulheres e jovens. Lula, por sua vez, conseguiu manter uma base sólida e atrair indecisos frustrados com a instabilidade econômica percebida.
Cenários alternativos: Caiado e Zema entram na disputa?
Apesar da liderança de Lula contra Flávio, a corrida ainda tem variáveis. Pesquisas da Real Time Big Data indicam que, em cenários hipotéticos contra outros nomes da direita, como o governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) ou Romeu Zema (Novo-MG), a disputa tende a ser mais equilibrada. Contra Caiado, por exemplo, houve empate técnico em 43% para cada um em algumas simulações.
No entanto, a tendência dominante mantém Lula à frente. Mesmo contra Renan Santos, outro nome mencionado, o presidente aparecia com vantagem expressiva de 19 pontos em certas projeções. O cenário mais provável, segundo a maioria dos analistas, continua sendo a confrontation direta com Flávio Bolsonaro, onde Lula detém a vantagem confortável.
O que dizem os especialistas?
A evolução rápida dos números surpreendeu até mesmo alguns observadores. Murilo Hidalgo, diretor do Instituto Paraná Pesquisas, havia afirmado em março de 2026 que, naquele momento inicial, Lula parecia ser o mais prejudicado pelo desgaste político geral. Mas a dinâmica inverteu-se. Como destacou reportagem do Brasil de Fato, as pesquisas realizadas "depois da repercussão" do escândalo mostram claramente o enfraquecimento de Flávio.
A lição aqui é clara: em democracias modernas, a percepção de integridade conta tanto quanto a proposta econômica. O "Caso Master" não é apenas um problema jurídico; é um fardo político que Flávio carrega nas costas. Se ele não conseguir se distanciar dessas narrativas nas próximas semanas, a vantagem de Lula no Rali pode se tornar intransponível.
Perguntas Frequentes
O que é o "Caso Master"?
O "Caso Master" refere-se a um escândalo envolvendo conversas e negociações financeiras entre o senador Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master. As gravações sugerem acordos políticos e financeiros questionáveis, incluindo suposto financiamento de projetos midiáticos ligados à família Bolsonaro, gerando grande repercussão negativa na opinião pública.
Como o Rali calcula as intenções de voto?
O Rali é um agregador desenvolvido pelo O Globo e o Instituto Locomotiva que coleta e pondera os resultados das rodadas mais recentes de diversos institutos renomados, como Datafolha, Genial/Quaest e Meio/Ideia. Ele produz uma média estatística que visa refletir o sentimento geral do eleitorado com maior precisão do que uma única pesquisa isolada.
Qual foi a mudança específica nos números de Flávio Bolsonaro?
Flávio Bolsonaro sofreu quedas consistentes em múltiplos institutos. No Datafolha, caiu de 45% para 43% no segundo turno. Na AtlasIntel/Bloomberg, perdeu seis pontos percentuais, ficando em 41,8%. No agregador Rali, sua média ficou em 40,6%, significativamente abaixo dos 45% de Lula, revertendo um cenário anterior de empate técnico.
O "tarifaço" dos EUA influenciou as pesquisas?
Sim. Analistas apontam que as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros exacerbaram a insatisfação econômica do eleitorado. Esse fator, combinado com o escândalo do Caso Master, contribuiu para a perda de apoio de Flávio Bolsonaro em segmentos-chave, como mulheres e jovens, beneficiando indiretamente a candidatura de Lula.
Há chances de Flávio recuperar a vantagem?
Embora possível em teoria, a recuperação dependerá de Flávio conseguir neutralizar o impacto do Caso Master e apresentar propostas econômicas claras diante da crise tarifária. Até o momento, a tendência das pesquisas de maio e junho de 2026 aponta para um desgaste contínuo, tornando a tarefa difícil sem novos fatos favoráveis.